domingo, 13 de março de 2016

Minha amiga morreu de um jeito muito estranho...

Sabrina Carrington, 25 anos de idade, caiu da escada duas horas e pouco da manhã. Segundo as informações que a polícia conseguiu resgatar do celular, ela estava mandando mensagens pouco antes de tropeçar. Um jeito muito moderno de morrer, certamente, mas nada malicioso. Apenas uma infeliz coincidência. Uma simples tragédia.

Eu fui a última pessoa com quem Sabrina entrou em contato. Eu era a pessoa com quem ela estava trocando mensagens antes de cair. Eu fui a pessoa que, uma semana depois, finalmente tive que encarar o rosto angustiado e confuso de seu marido.

Todos os que foram ao funeral e toda congregação estavam ansiosos por uma resposta - Qual era o assunto de nossa conversa, o que era tão interessante que fez com que Sabrina estivesse perambulando a noite e no escuro, em sua casa, enquanto trocávamos mensagens?

Eu tinha que contar a verdade: Não entendi o que Sabrina estava tentando me dizer. Embora ainda fossemos amigas, mesmo depois de dez anos da nossa formatura, a última vez que tínhamos entrado em contato foi a dois meses antes, quando fomos almoçar juntas. Mas desta vez suas mensagens eram bem enigmáticas, pelo menos. A polícia me deu a conversa que tivemos pelas mensagens transcritas e impressas, para que eu lesse novamente, mas não foi de muita ajuda. Me lembro muito bem daquela noite e já a revivi milhares de vezes; tipo quando fui acordada pela vibração do meu iPhone perto do meu ouvido.

SABRINA: (01:48): E.J? E.J, Estou com muito medo. Estou do lado de fora da sua casa. Como eu vim parar aqui?

E.J: (01:49): Você deve ter vindo dirigindo? Sabrina, que porra é essa? O que está acontecendo?

SABRINA: (01:49): Não, eu não vim dirigindo. E.J, me deixa entrar.

E.J: (01:49): O que foi? O que aconteceu?

SABRINA: (01:50): Você não está me ouvindo bater na porta?! Estou congelando aqui fora! Me deixa entrar!

E.J: (01:50): Deve estar uns 23 Cº e não estou ouvindo nada.

SABRINA: (01:51): Ah, tua campainha também está estragada? Ok, vou entrar pelos fundos. Sua chave extra ainda está no vaso de flor, né?

E.J: (01:51): Espera, tô indo aí.

E.J: (01:52): Sabrina, onde diabos você está?

SABRINA: (01:52): Estou na sua sala, te esperando. Ou será que vou ter subir aí e arrastar essa sua bunda gorda para fora da cama? Sério, E.J, eu estou surtando. Eu não sei explicar como eu vim parar na porra da sua casa agora.

E.J: (01:53): Sabrina, para de brincadeiras. Você não está na minha sala. Se não parar de zoar comigo, vai ver só!

SABRINA: (01:53): Então quer dizer que você não me ouviu derrubar o seu vaso de flor?

E.J: (01:54): Mas que diabos você está falando???

SABRINA: (01:54): Espera aí, deixa eu tentar te ligar. Talvez funcione a ligação agora.


É só isso. Uma ligação de três segundos foi registrada do celular dela para o meu, mas não foi sólida o suficiente para ajudar nas investigações. Quando atendi o telefone as 01:54 da manhã, ouvi uma voz masculina não familiar de fundo, e Sabrina exclamando "E.J!". Ela parecia surpresa e aliviada quando a ligação foi desconectada.

Continuei a mandar mensagens para ela depois desse estranho incidente, mas não recebi resposta até que, bem, até que recebi a polícia na minha porta.O marido dela a encontrou no pé da escada por volta das duas da manhã, pois se acordou com o estrondo dela caindo. Assim como todos os que foram no funeral, os investigadores esperavam que eu tivesse uma resposta para resolver esse mistério. Sabrina estava convencida que estava do lado de fora da minha casa, mas o fato que demora mais ou menos vinte minutos de carro para chegar da casa dela até a minha, provava o contrário. As digitais dela não foram encontradas na porta da frente ou dos fundos, e o único vaso de flor da minha casa estava intacto.

No final, assinaram o caso com acidental e concluíram que ela estava em estado sonambulo (e mandou mensagem enquanto estava nesse estado de sonambulismo). Como as pessoas estavam ansiando uma resposta, todos aceitaram essa justificativa. Depois de um mês, eu também  estava inclinada a aceitar essa resposta. Até doze horas atrás.

Doze horas atrás eu acordei com alguém batendo na minha porta da frente.

Minha primeira ideia foi ignorar. Estava gripada para caramba, e não estava com humor para ser acordada no meio da noite. Não ligava se fosse meu vizinho vindo me avisar que minha casa estava pegando fogo. Eu esperaria até que os detectores de fumaça começassem a apitar antes de mover um centímetro do meu corpo para sair da cama.

Dei um pulo quando ouvi o som de vidro quebrando, meu corpo se preparando para a ideia de ter um invasor na minha casa. Me arrepiando com o silêncio repentino que veio depois, me estiquei para pegar o bastão de beisebol que fica perto da minha cama. Sempre fui preguiçosa demais para conseguir uma licença para arma de fogo e também para me registrar em aulas de tiro, e naquele momento me odiei por isso.
Descendo as escadas sorrateiramente, meu coração batia na minha garganta. Eu respirava pela boca, amaldiçoando meu sistema imunológico por me dar uma gripe tão ferrada que não conseguia respirar pelo nariz silenciosamente. Com os ouvidos meio entupidos, ouvi alguém digitando rapidamente, acompanhada com uma voz feminina xingando baixo.

Parei de andar quando tive uma visão melhor da sala de estar. Havia uma silhueta lá. Uma sombra com o rosto iluminado pela luz de um iPhone. Minha voz saiu rouca, parecendo estranha até para meus próprios ouvidos.

"Sabrina?"

Impossivelmente, ela respondeu. Eu vi ela sorrir e gritar meu nome. Veio em minha direção correndo, abrindo os braços para me abraçar, mas-

Quando pisquei, ela desapareceu.

Fiquei de pé no pé da escada por um bom tempo, esperando algo acontecer. Mas no final das contas, foi só isso. Fechei a porta dos fundos que estava entreaberta, com aquele frio absurdo de -5 Cº, depois varri os cacos do de vidro do vaso de flor que estava no chão da cozinha. Liguei todas as luzes da casa e a TV também. Esperei até meio dia para ir almoçar em um restaurante, onde fiquei sentada quase o dia inteiro, repensando nos últimos minutos da existência de Sabrina Carrington.

Em algum momento antes de 01:48 da manhã, Sabrina acordou e começou a andar pelo segundo andar de sua casa. De alguma forma, ela apareceu na minha porta, por apenas instantes. Não existe explicação cientifica para uma teletransportação de cinco minutos para o futuro, ou nenhuma razão lógica de o porquê algo tão fantástico e imprevisível aconteceria com a Sabrina Carrington que fez a cadeira de Biologia comigo.

É com um gosto amargo em minha boca que digo que Sabrina deu um tropeção acidental para o futuro e, infelizmente, conseguiu dar o passo de volta para o passado.

Eu trabalhava no necrotério para tirar um dinheiro extra.

u não tinha pretensão de contar essa história para ninguém. Nunca. Já fazem mais de quinze anos e, na época, não achei que valesse a pena. Mas como meu tempo na terra está chegando ao fim, de alguma forma não vou suportar deixar essa memória cair em um limbo. Existe uma verdade aí, mas sou muito estúpida para entendê-la. Então vou deixar aqui. Talvez algum de vocês possa dar sentido a isso tudo.

Quando eu tinha vinte e poucos anos, fiz um curso de enfermagem. Olha, não foi fácil nem barato. Então, acabei tendo empregos e funções bem esquisitas no hospital para conseguir pagar minhas contas no final do mês. A maioria nem era tão ruim assim. Na maior parte do tempo envolvia bastante limpeza e trabalho de recepção.

Mas então, é claro, teve o necrotério.

Eu não gostava de trabalhar lá em baixo no necrotério. Francamente, não conheço muitas pessoas que tenham gostado. Mas o pagamento era ótimo em troca de pouco trabalho. Tudo que eu tinha que fazer era limpar e ficar de olho nas coisas quando não havia médicos presentes, algo que acontecia geralmente tarde da noite. Ocasionalmente, tinha que ajudar a mover um corpo de lugar, também. Mas isso não é nada com que eu não pudesse lidar.

Eu passava minhas noites lá em baixo, mais ou menos três ou quatro noites por semana. Limpava tudo e então me sentava para estudar, tendo certeza que tudo estava "nos trinques", como as freiras costumavam dizer.

Não era um trabalho difícil. Mas eu não gostava.

Veja bem, o necrotério ficava no porão, bem em baixo, depois de um longo corredor com luzes fracas. Você deve pensar que trabalhar em um necrotério faz com que você se lembre da morte e, bem, você está certo. Mas não é só isso. TODO o lugar parecia com a morte, ainda além dos corpos que regularmente abrigava. Pra mim, nunca pareceu normal. Achei que eu estava paranoica.

Mas uma noite foi provado que era muito mais que isso.

Ainda me lembro que era uma quinta-feira. Não sei o porquê disso se destacar tanto nas minhas memórias, mas simplesmente acontece. Era quinta-feira e eu estava sozinha no necrotério. A noite foi relativamente normal, apenas um corpo tinha sido levado pra lá. Me lembro que o médico que trouxe o corpo parecia no sei limite. Quando perguntei o motivo, ele disse:

"Quando esse cara chegou, estava perfeitamente bem, mas não parava de gritar que iria morrer. Achamos que ele era hipocondríaco ou que talvez estivesse tendo um episódio de surto psicótico. Quando estávamos prestes a sedá-lo, o corpo dele simplesmente... desligou. Foi como se tudo lá dentro tivesse parado. Morreu em poucos minutos. Não conseguimos reanimar. Ninguém faz ideia o que o matou."

Meu coração dava fisgadas enquanto eu ajudava a colocar o corpo na mesa. Estávamos com poucos funcionários no hospital naquele dia, então ele só seria examinado no dia seguinte, quando um médico estaria disponível para fazer a autópsia. Isso significava que eu teria que ficar com aquele cadáver ali a noite toda.

Bem, isso não me incomodava muito. Claro, era meio medonho, mas nada que eu já não tivesse lidado.

Então, quando o médico saiu, peguei meus livros e me debrucei sobre eles, esperando que isso dissipasse a tensão que ficara sobre o necrotério. Me vi procurando algo - qualquer coisa - que faltasse para limpar, mas o maldito lugar estava que era um brinco recém polido . Tentei me perder nas terminologias médicas dificílimas dos meus livros, mas por algum motivo, naquela noite em particular eu não conseguia me concentrar.

Talvez fosse minha intuição feminina. Ou quem sabe intuição mais... animalesca. De qualquer forma, eu podia sentir que algo estranho estava prestes a acontecer no necrotério.

É um clichê, mas aconteceu exatamente à meia-noite.

Começou com uma queda de energia. O único aviso que tive foi que, por um momento, as luzes piscaram antes da falta de energia, o silêncio que se seguiu era quebrado somente pelo crepitar das lampadas que estavam esfriando.

Merda, pensei. E agora?

Eu estava sentada na mesa onde os médicos costumam preencher a papelada depois das autópsias, então passei as mão rapidamente por de baixo da mesa e por dentro das gavetas, tentando achar uma lanterna. Tentei não pensar no cadáver que esperava no escuro.

Por Deus, Marybeth, é apenas um cadáver, não pode te machucar. Engole o choro!

Eu estava procurando na terceira e última gaveta quando a luz voltou e vi algo estranho pelo canto do meu olho.

Minha respiração trancou na minha garganta porque em algum lugar no fundo da minha mente eu sabia que já tinha passado por coisa suficiente para saber o que aquilo significava. Mas o resto de mim ainda estava descrente. Lutando uma batalha interna, virei lentamente em direção da outra mesa.

O cadáver estava sentado.

Meu primeiro pensamento, claro, era que não era um cadáver coisíssima nenhuma. O médico já havia dito que ele tinha simplesmente "desligado"... A equipe médica podiam ter se enganado. Mas algo continuava a me impedir de andar até lá para ver se o homem estava bem.

Ele não estava respirando.

Podia ser facilmente confundido com uma estátua. Tentei falar para mim mesma que estava sim respirando, que simplesmente eu não conseguia ver da distância que estava, mas não fiquei convencida. Tentei me forçar a andar até ele, mas não conseguia.

De repente, a cabeça dele vira em minha direção.

Não vi acontecer de fato. Pisquei e, quando abri os olhos novamente, a posição da cabeça havia mudado. Para piorar a situação, isso devia ser impossível, pois eu estava diagonalmente atrás dele. Cabeças não viram tão para trás assim, a não ser que o pescoço esteja quebrado ou muito detonado. Mas ali estava ele, seus olhos cravados em mim.

E foi aí que notei os olhos.

Na verdade, não existiam. Eram apenas dois buracos nojentos olhando para mim e, sim, ele ESTAVA olhando. Tenho certeza que aquele cadáver tinha olhos quando chegou mais cedo ao necrotério. Mas isso não importa. O que importa é que agora tinham sumido.

Pisquei.

Desta vez, estava sentado na ponta da mesa, com as pernas pendendo para fora. Ele balançava as pernas como uma boneca de pano, e foi com esse movimento tenebrosos que encontrei minha voz.

Gritei e corri para a porta.

Você se lembra dos corredores que mencionei antes? Os compridos de luzes fracas que eu precisava passar para chegar no necrotério?

Haviam corpos alinhados no chão deles.

Corpos parados, que não respiravam, bem mortos. E nenhum deles tinha olhos.

Mas todos olhavam para mim.

Isso quase fez com que eu parasse ali mesmo, pois sentia que estava presa entre duas mortes diferentes. Estava totalmente apavorada com a ideia de que, se eu pisasse no corredor, eles pulariam em mim como pássaros demoníacos e arrancariam meus olhos para que eu não olhar para eles. Ao mesmo tempo, eu sabia que o outro cadáver estava se aproximando rapidamente.

Então cometi um erro. Me virei para trás.

Ele estava de pé, a menos de 30 centímetros de mim.

Aqueles buracos no rosto olhavam para mim enquanto a pouca pendia aberta, desengonçada. Uma vibração esquisita emanava do cadáver, e um filete de sangue caia pelo canto de sua boca.

Meu corpo fez a decisão por mim. Corri.

Corri, corri, corri, corri até que consegui sair do hospital. As enfermeiras de plantão tentaram me impedir, mas eu não podia ser impedida. Corri algumas quadras que separavam o hospital de nossos dormitórios. Corri para dentro e caí no chão, assustado imensamente a Irmã Ruth, que estava monitorado o andar naquele dia.

Irmã Ruth era rigorosa, mas era boa de coração. Ela sabia que eu deveria ficar no necrotério até as quatro da manhã, então estava pronta para me xingar quando viu meu rosto. Não sei exatamente o que ela leu na minha expressão, mas não me castigou. Também não me perguntou o que aconteceu. Simplesmente ligou para o hospital notificando que teriam que mandar outra pessoa lá para baixo para me substituir.

Quando desligou o telefone, eu já estava soluçando, o medo escorria pelos meus olhos. Ela colocou os braços em meus ombros e sussurrou "shhh, está tudo bem, você não precisa voltar pra lá".

E não voltei. Em todos meus anos como enfermeira, nunca mais voltei para aquele necrotério, aliás, nenhum necrotério. Não sou uma estranha para a morte. Essas coisas não me assustam mais.

Fonta : CreepypastaBrasil